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A LINHA CRISTALINA OU DA FÉ: OXALÁ



 
A ORIGEM TEOLÓGICA E CULTURAL DOS ORIXÁS

Teologicamente, os orixás têm origem em Deus, e isso creio que todos nós sabemos. Entretanto, culturalmente, os orixás têm origem na África, mas não em toda África. O continente Africano é enorme, e, por exemplo, O Egito fica na África, próximo do Rio Nilo, logo, muito do que é judaico-cristão nasceu na África também. Lembrar disso já poderia ser uma razão para que os cristãos mais exacerbados e preconceituosos deixassem de criticar as religiões de origem Afro, visto que, no início, as raízes de seu culto são as mesmas. Porém, isso faz parte de outra aula.

Retomando o ensinamento acerca dos orixás e sobre a África, faz-se necessário lembrar que, antigamente, as etnias de povos africanos eram designadas com o nome de nação, e, como cada etnia tinha seu próprio culto, nasceu a expressão culto de nação. Hoje temos mapas para dividir os povos africanos e as etnias, mas, antigamente, eram esses povos divididos por nação e pela cultura de cada nação. Assim, os orixás vieram da África, em uma época em que a divisão das etnias e povos era cultural, e não meramente geográfica.

Dito isto, já dá para imaginar e deduzir que todos os orixás não eram cultuados em uma mesma nação, e que, a depender da nação, ali, naquela localidade, era cultuado um determinado orixá, e noutra nação e localidade outro orixá, e assim por diante. A reunião do culto de vários orixás diferentes num mesmo local vai ocorrer no Brasil, quando povos de matizes africanas, de etnias (nações) diferentes, foram obrigados a conviver devido ao horror da escravidão que lhes foi imposta. Por exemplo, o Candomblé, que cultua vários orixás simultaneamente é uma religião afro-brasileira, e só existe no Brasil, pois, na África, o culto é denominado de culto de nação, e cada nação tem seus orixás, e não louvam os orixás reunidos como o faz o Candomblé. Logo, existe uma diferença entre o culto de nação africano e o Candomblé, e uma coisa não se confunde com a outra.

ILÊ-IFÉ: A JERUSALÉM AFRICANA

Geograficamente um país é dividido em estados, que são divididos em cidades, que são divididos em bairros. Pois bem. Antigamente havia uma grande região habitada pelos povos de cultura nagô-Ioruba, e dentro dessa região haviam pequenas nações, tais como cidades. Em cada cidade (entenda por cidade “região” ou "nação") haviam cultos a orixás diferentes, conforme esclareci acima. Dependendo da localidade e da cultura predominante, determinado (s) orixá (s) era cultuado, ou seja, os nossos orixás vêm de lugares e culturas diferentes, mesmo sendo todos oriundos da cultura nagô-iorubá, da localidade habitada por esse povo na Africa - precisamente onde hoje é a Nigéria e parte da Repúlica do Benin.

Assim, o culto ao orixá oxalá se dava (e se dá) na cidade/localidade de Ilê-Ifê (atualmente fica dentro do estado de Osun, na África, e possui população de mais de 500.000 (quinhentos mil) habitantes – dados de 2016). Ifé significa “amor”, em Yorubá.

A cidade de Ilê-ifé é considerada sagrada pelos povos africanos (tal qual Jerusalém pelos judeus), pois, de acordo com a cultura nagô-yorubá, foi a partir dessa cidade que foi construído o mundo e os homens, e por isso, também, ali surgiu o culto ao Orixá Oxalá, considerado o mais velho dos Orixás. Também em ilê-Ifé temos o culto ao irmão de Oxalá, Odudua, e também o culto a Orunmilá.

OXALÁ NO CANDOMBLÉ E OXALÁ NA UMBANDA

Faz-se necessário frisar que, embora os orixás sejam comuns no Candomblé e na Umbanda, os fundamentos destas duas religiões são diferentes, e isso significa que a interpretação acerca do orixá é diferente, bem como o seu culto e os rituais que os envolvem.

Assim, as informações passadas no Candomblé e na Umbanda são divergentes, mas isso não significa que uma esteja certa e outra errada, nada disso; isso significa, apenas, que aquelas informações pertencem a um contexto religioso diferente, e como tal deve ser respeitado. Há também de se salientar que, entre os candomblés e as umbandas também há diferenças acerca dos orixás, e isso irá gerar um contexto de informações totalmente novo e rico.

OXALÁ NÃO É DEUS

É comum encontrar aqueles que, por Oxalá, entendem Deus. Entretanto, Oxalá não é Deus, é um orixá, ou seja, uma divindade. Deus é uno (a Umbanda é monoteísta, lembra?) e podemos chama-lo de Olorum, Olodumare, Zambi, Tupã, etc, ou apenas Deus. Existe apenas um único Deus que é pai e mãe, criador e criadora de tudo e de todos. Esclarecendo alguns dos significados dos nomes acima, o nome de “Olorum” significa “O senhor do Orum”, sendo que Orum é todo o mundo imaterial. “Olodumare” é o “Senhor Supremo dos nossos destinos”, “Zambi” é “O Poderoso”.

De fato, Oxalá ele é um Orixá criador, mas ele não é o criador dos mundos, pois o criador dos mundos é Olorum. Oxalá é co-criador com relação a Deus tanto que Oxalá é o Orixá modelador, que modela os seres, os mundos, as dimensões e as realidades, mas o fato dele ser co-criador e um orixá modelador não lhe confere status igual de Olorum, único Deus. Há uma lenda africana na qual Oxalá cria o homem a partir do barro, mas quem dá a vida é Olorum. Logo, há uma diferença entre Oxalá e Deus, e não podemos confundi-los.

JESUS CRISTO NÃO É OXALÁ

Quem ainda não viu a imagem de Cristo com os braços abertos sobre o congá (altar) do terreiro de Umbanda? Creio que todos já visualizamos tal imagem. Ocorre que muitos pensam que Jesus Cristo e Oxalá são a mesma coisa. Pois bem, não são! O que acontece com Jesus Cristo e Oxalá é um sincretismo, que também acontece com os demais Orixás.

Sincretismo é um processo de assimilação de características comuns entre dois elementos que resulta num terceiro elemento, com interpretação própria, a partir das similaridades que existem entre os dois. Nesse sentido, Oxalá e Cristo tem características comuns e, por isso, são sincretizados. Tal sincretismo iniciou-se no Brasil, com os negros escravos que, por serem proibidos de cultuarem seus orixás, tiveram de encontrar uma saída para manter a sua religiosidade. Como era permitido e ensinado pelo branco que o catolicismo cristão era a única religião correta, e como esse catolicismo adotava (e adota) imagens de santos e santos, o negro viu, na associação dos orixás com aqueles santos uma saída para cultuar seus orixás sem levantar desconfiança dos seus senhores brancos, cristãos e tiranos.

É assim que Oxalá foi comparado com Jesus Cristo, Oxum com Nossa Senhora Conceição, Oxóssi com Santo Expedido, Ogum com São Jorge, Xangô com São Jeronimo, Obaluaiê com São Lazaro, Iemanjá com Maria, mãe de Jesus, Oxumaré com São Bartolomeu, Iansã com Santa Barbara, Nanã com Nossa Senhora Santana, etc. Entretanto, a mera associação, denominado sincretismo, não torna os orixás iguais aos santos católicos, e vice-versa.

Note que o sincretismo nasceu no Brasil Colônia, ou seja, em uma época em que o negro era escravizado, maltratado e impedido de cultuar seus Orixás. É por essa razão que muitos estudiosos e pesquisadores da religião defendem a extinção das imagens católicas de dentro de nossos terreiros, visto que a muito tempo o negro é livre, liberto e pode manter sua religiosidade livremente.

Porém, quando a Umbanda foi fundada em 1908, já não havia mais escravidão, assim, tenho que reconhecer enquanto teólogo e pesquisador que o sincretismo umbandista não se deu sob os auspícios da escravidão, mas noutro cenário. Nesse contexto, cabe lembra que na recém fundada Federação Espírita de Niterói, no dia 15 e novembro de 1908, quando o Caboclo das Sete Encruzilhadas foi indagado sobre qual seria o nome da igreja que ele iria fundar o mesmo respondeu: “Tenda Nossa Senhora da Piedade, porque assim como Maria acolheu nos braços o filho amado, a Umbanda acolherá todos quantos dela precisem”. Fica evidente que o sincretismo religioso na Umbanda nasceu noutro contexto, em meio a um cenário de espontaneidade, por decisão deliberada do seu fundador, logo, não vejo como plausível que, sob o argumento de que o sincretismo é produto da escravidão, excluamos as imagens católicas cristãs dos nossos congares. Aqueles que assim desejarem, podem fazê-lo, mas não só este argumento, que, em si mesmo, é falacioso e nasce da falta de conhecimento histórico. Por muito tempo defendi, de maneira agressiva e contundente, esse posicionamento, entretanto, em análise mais acuidada e minuciosa meu posicionamento se alterou.

Além do que, num dia em que estava decidido não compactuar com qualquer sincretismo, conversei meu preto-velho, Sr. Pai Antônio de Angola, que me disse: “fio, se tirar a s imagens dos santos do conga, pra quem nos reza pra ajudar ocês?”. Foi como que um tapa no rosto, assim, vi que as raízes do sincretismo na Umbanda não se deram, de fato, em função da escravidão. Quem conhece meu altar, sabe que eu não há imagens cristas, como a de Cristo, sobre o meu altar, mas isso não se dá em função de um posicionamento de que o sincretismo deva ser abandonado, e sim porque, quando da montagem do mesmo, preferi, primeiramente, firmar as imagens africanas dos orixás para, depois, mais a frente, firmar as imagens cristãs, se for o caso.

Entretanto, embora aceitemos o sincretismo e visualizemos benefícios para a manutenção do mesmo dentro dos templos de Umbanda, não podemos achar que os orixás e os santos são a mesma coisa. A mera comparação entre similaridades e características parecidas não tornam o que é diferente igual, apenas torna os diferentes aceitáveis no mesmo espaço religioso. Assim, Jesus Cristo não é Oxalá, e embora aceitemos e cultuemos a Cristo na Umbanda, não o fazemos a partir da perspectiva Cristã, mas Umbandista. Jesus Cristo poderia ser tido como um filho de Oxalá, pois foi um grande líder religioso e, deu caso, para a fundação de uma das principais religiões do mundo, o cristianismo. Assim, como Oxalá lida com os aspectos da fé e da religiosidade, e como Jesus também lidou, ele poderia ser colocado, e de fato o-é, como sendo um filho de Oxalá.

OXALÁ: O ORIXÁ DO PERDÃO

Oxalá, por ser sincretizado com Jesus Cristo, é considerado o orixá do perdão. Jesus Cristo, na cultura judaico-cristã, foi aquele que se deu em sacrifício para que Deus, por meio da oferta de seu próprio sangue, redimisse e perdoasse a humanidade. Na Bíblia, especificamente no Velho Testamento, mais precisamente no livro de Êxodo e Levíticos, uma vez por ano o sumo sacerdote ofertava a deus um bode em sacrifício para que, por meio daquele sacrifício animal, os pecados do povo de Israel fossem perdoados. A título de curiosidade, é daí que nasce a expressão bode expiatório.

Assim, por Oxalá ser considerado o orixá do perdão, é comum os consulentes, ao estarem sobrecarregados com as culpas dos seus erros, serem orientados pelos mentores e protetores de luz a baterem cabeça no congá, a acender vela para Oxalá, a rezar a este divino orixá, pois é a Oxalá a quem pedimos perdão e remissão de nossos erros e falhas. Entretanto, cabe salientar, só é perdoado aquele que está verdadeiramente arrependido, e não aquele que apenas aparenta estar.

O SIGNIFICADO DO NOME OXALÁ

O nome Oxalá está na língua Yorubá, falada pelos povos nagôs, que habitam uma parte importante da África, sendo a região onde fica, atualmente, o país da Nigéria e parte da Republica do Benin. A origem do nome Oxalá vem de “Orixá N’ti Alá”, que quer dizer o “Orixá que se veste de branco” – “Alá” quer dizer branco -. Com o tempo, o nome foi se contraindo e passou a ser “Orixá N’lá”, passando a “Orixalá”, que siginifica o “Orixá que se veste de branco”. Algumas pessoas traduzem “Orixalá” como o “Maior dos Orixás”, e de fato Oxalá é considerado o maior dos Orixás na cultura nagô-yorubá, entretanto o nome “Oxalá” significa: “o Orixá que se veste de branco”.

Na cultura nagô-yorubá também é comum designar por “Obatalá”, sendo que “Obá” quer dizer o rei, “talá” vem de “N’Alá”, é mais uma contração. Assim, Obatalá é traduzido como “o rei que se veste de branco”, e não como “o maior de todos os orixás”. Então, tanto Oxalá quanto Obatalá são nomes para o mesmo Orixá.

QUALIDADES OU CAMPOS DE ATUAÇÃO?

No Candomblé é comum ouvir falar em qualidades de orixás, que são maneiras pelas quais um mesmo orixá atua e age na vida de uma pessoa. No Candomblé, as qualidades também influencia na forma de fundamentar (assentar) o orixá e até mesmo na ritualistica de culto a divindade. Há um entendimento de que não basta saber que alguém é filho de Oxalá, por exemplo, e que é necessário, também, saber qual a qualidade de Oxalá que aquele filho tem. O entendimento é que existe apenas um Oxalá, mas que esse Oxalá tem qualidades (também chamam de "caminhos") diferentes, e isso vai fazer uma grande diferença na vida de uma pessoa, pois, a depender da qualidade, duas pessoas, filhos do mesmo orixá, podem ser totalmente diferentes e terem suas vidas conduzidas por rumos diferentes.

De modo geral e em síntese, no Candomblé, as qualidades de Oxalá são:

Oxalá Ajagemo: para o qual durante a sua festa anual em Edé, dança-se e representa-se com mímicas, um combate entre ele e Oluniwi, no qual este último sai vencedor.
 
Oxalá Akire ou Ikire: É um valente guerreiro muito rico que transforma em surdo e mudo a quem o negligencia.
 
Oxalá Alase ou Olúorogbo: Salvou o mundo fazendo chover num período de seca.
 
Oxalá Etéko: Caminha com Oxaguiã, é inquieto. Vive nas matas e come todo o tipo de carne branca.
 
Oxalá Eteto Obá Dugbe: Outro guerreiro, ligado a Orixalá.
 
Oxalá Lejugbe: é muito confundido com Oxalufan por ser vagaroso e indeciso. Muito chegado a Ayrá. Come com Yemanjá e Oxalufan. Come também todo tipo de carne branca.
 
Oxalá Obatalá: É o mais velho dos orixás. O grande rei branco, raiz de todos os outros Oxalás. É o pai de Oxalufan, que por sua vez é o pai de Oxaguiã. Por ser muito grande e poderoso, Obatalá não se manifesta, sua palavra transforma-se imediatamente em realidade. Representa a massa, o ar, as águas frias e imóveis do começo do mundo, controla a formação dos novos seres, é o senhor dos vivos e dos mortos.
 
Oxalá Okó: Divindade da agricultura e colheita dos inhames novos e a fertilidade da terra. Orixá Nagô, pouco conhecido no Brasil. Na época da chegada dos escravos, não deram muita importância a este orixá, considerando como orixá da agricultura, em seu lugar Ogum e dos grãos Obaluaiê. Quando se manifesta leva um cajado de madeira que revela sua relação com as árvores, traz uma flauta de osso que lembra sua relação com a sexualidade e a fertilidade. Seu Opaxoró, no Brasil, é confeccionado em madeira. Sendo um Orixá raro, tem poucas qualidades conhecidas. É um Orixá rico.
 
Oxalá Orinxalá, OrixaláÉ casado com Yemanjá, suas imagens são colocadas lado a lado e cobertas com traços e pontos desenhados com efum, no Ilésin, local de adoração, dizem que Yemanjá foi a única mulher de Orixalá um caso excepcional de monogamia entre orixás e eborás.
 
Oxalá Oxalufã (Orixá Olú Fon): Orixá velho e sábio, cujo templo é Ifón pouco distante de Oxogbô, a cerimónia de saudações é de dezesseis em dezesseis dias. Orixá muito velho, de idade avançada, aleijado, lento, movendo-se com muita dificuldade. Dança apoiado no opaxoró. Treme de frio e velhice. Detesta a violência, disputas e brigas. Não come sal e nem dendê; odeia cores fortes, principalmente o vermelho. A ele pertencem os metais e substâncias brancas; não suporta cavalos.
 
Oxalá Osoguiã ou Oxaguian (Orixá Ogiyan): Orixá jovem e guerreiro, cujo templo principal se encontra em Ejigbô. Tomou o título de Eleejigbô Rei de Ejigbô uma de suas características e o gosto pelo inhame pilado chamado lyán, que lhe valeu o apelido de Orisa-Je-Iyán ou Orisájiyan. A tradição exige que os habitantes de dois bairros Xolô e Oké Mapô lutem uns contra os outros a golpes de varas. É o único que tem autorização de enfeitar seus colares brancos com pedras azuis, chamadas Seguy. Está ligado ao culto de Iroko e dos espíritos, assim como a fertilidade e o culto ao inhame. É o pai de Oxossi Inlé, come com Ogunjá, Oxossi Inlé, Airá, Exu, Oyá e Onira. Tem muito fundamento com Oyá pois, é o dono do Atori, fundamento que lhe foi dado por ela, motivo pelo qual as pessoas de Guian devem agradar muito a Oyá. Vem pelos caminhos de Onira; tem ligação forte com Exu. Seus filhos devem evitar brigas e mentiras e principalmente, não devem enganar a Ogum.
 
Na Umbanda Sagrada, que praticamos, entendemos da mesma maneira, entretanto, não denominamos de qualidades o modo como um mesmo orixá age, e sim denominamos de campo de atuação. Assim, de fato um mesmo orixá, tal como Oxalá, possui maneiras de agir diversas (as qualidades do Candomblé ou os campos de atuação na Umbanda Sagrada), e é necessário conhecer esse campo de atuação, apenas os nomes e maneiras de se referir a isso é que se modificam.

Por vezes é um filho de fé pergunta ao outro: “já que é filho de oxalá, qual é o teu Oxalá?”, e daí aquele que foi indagado responde. Assim, aquele que perguntou informa, logo em seguida, que tem um outro Oxalá. Preste atenção, na verdade, não existem vários oxalás, e sim várias maneiras de um mesmo oxalá atuar e agir na vida das pessoas, e esse tipo de comunicação que exemplifiquei acima é utilizada apenas para saber qual a qualidade ou campo de atuação daquele orixá que atua na vida de um filho de fé, e não para afirmar que existem inúmeros oxalás, compreendido?

Como na Umbanda cultuamos 14 (catorze) orixás principais, sendo Oxalá um destes orixás, fica fácil compreender que Oxalá pode se entrecruzar com os outros 13 orixás, ou ter qualidades dos outros 13 orixás, ou ainda ser um Oxalá misto com os outros 13 orixás (são maneiras diferentes de dizer a mesma coisa), que são: Logunan, Oxum, Oxumaré, Oxóssi, Obá, Xangô, Egunitá, Ogum, Iansã, Obaluaiê, Nanã, Iemanjá e Omolu.

LENDAS SOBRE OXALÁ

Embora tenhamos a nossa própria interpretação acerca do orixá Oxalá, que é a visão da Umbanda Sagrada, compartilho abaixo algumas lendas africanas (chamadas de itãs) sobre este grande orixá. Os fatos descritos nas lendas não representam fatos históricos, e são apenas visões mitológicas, dos povos nagô-yorubás, acerca do orixá Oxalá.


PRIMEIRA LENDA

No começo, o mundo era todo pantanoso e cheio d’água, um lugar inóspito e sem nenhuma serventia.

Acima dele havia o Céu, onde viviam Olorum e todos os Orixás, que às vezes desciam para brincar nos pântanos insalubres. Desciam por teias de aranha penduradas no vazio. Ainda não havia terra firme, nem o homem existia.

Um dia Olorum chamou à sua presença Orixanlá (Oxalá), o Grande Orixá. Disse-lhe que queria criar terra firme lá embaixo e pediu-lhe que realizasse tal tarefa. Para a missão, deu-lhe uma concha marinha com terra, uma pomba e uma galinha com pés de cinco dedos.

Oxalá desceu ao pântano e depositou a terra da concha. Sobre a terra pôs a pomba e a galinha, e ambas começaram a ciscar. Foram assim espalhando a terra que viera na concha, até que a terra firme se formou por toda parte.
Oxalá voltou a Olorum e relatou-lhe o sucedido.

Olorum enviou um camaleão para inspecionar a obra de Oxalá e ele não pôde andar sobre o solo que ainda não era firme. O camaleão voltou dizendo que a Terra era ampla, mas ainda não suficientemente seca. Numa segunda viagem o camaleão trouxe a notícia de que a Terra era ampla e suficientemente sólida, podendo-se agora viver em sua superfície. O lugar mais tarde foi chamado Ifé, que quer dizer ampla morada.

Depois Olorum mandou Oxalá de volta à Terra, para plantar árvores e dar alimentos e riquezas ao homem.

E veio a chuva para regar as árvores.

Foi assim que tudo começou.

Foi ali, em Ifé, durante uma semana de quatro dias, que Oxalá criou o mundo e tudo o que existe nele.

SEGUNDA LENDA

Num tempo em que o mundo era apenas a imaginação de Olodumare, só existia o infinito firmamento e abaixo dele a imensidão do mar.

Olorum, o Senhor do Céu, e Olocum, a Dona dos Oceanos, tinham a mesma idade e compartilhavam os segredos do que já existia e ainda existiria.

Olorum e Olocum tiveram dois filhos: Orixalá, o primogênito, também chamado Obatalá, e Odudua, o mais novo.

Olorum-Olodumare encarregou Obatalá, o Senhor do Pano Branco, de criar o mundo, dando-lhe poderes para isso.

Obatalá foi consultar Orunmilá, que lhe recomendou fazer oferendas para ter sucesso na missão. Mas Obatalá não levou a sério as prescrições de Orunmilá, pois acreditava somente em seus próprios poderes.

Odudua observava tudo atentamente e naquele dia também consultou Orunmilá, o qual assegurou que se ele fizesse as oferendas prescritas, seria o chefe do mundo que estava para ser criado. A oferenda consistia em quatrocentas mil correntes, uma galinha com pés de cinco dedos, um pombo, um camaleão e quatrocentos mil búzios. Odudua fez as oferendas.

Chegado o dia da criação do mundo, Obatalá se pôs a caminho até a fronteira do além, onde Exu é o guardião. Obatalá não fez as oferendas nesse lugar, como estava prescrito. Magoado com a insolência, Exu usou seus poderes contra Oxalá, provocando-lhe muita sede. Para aplacar a sede, Oxalá tocou com seu bastão no tronco de uma palmeira e dela jorrou vinho em abundância. Ele bebeu vinho até embriagar-se e adormecer na estrada, à sombra da palmeira de dendê, abandonando o saco da criação que recebera de Olorum.

Odudua, que tudo acompanhava, apanhou o saco da criação, foi até Olorum e lhe contou o ocorrido. Então, Olorum-Olodumare confiou-lhe a criação do mundo.
Com as quatrocentas mil correntes Odudua fez uma só e por ela desceu até a superfície do mar. Sobre as águas sem fim, abriu o saco da criação e deixou cair um montículo de terra. Soltou a galinha de cinco dedos e ela voou sobre a terra, pondo-se a ciscá-la, espalhando a terra na superfície da água. Odudua exclamou: “Ilè nfé!”, que significa: “A Terra se expande!”, frase que depois deu nome à cidade de Ifé, a qual está exatamente no lugar onde Odudua fez o mundo.

Em seguida, Odudua apanhou o camaleão e o fez caminhar naquela superfície, demonstrando a firmeza do lugar.

Obatalá continuava adormecido. E Odudua partiu para a Terra para ser seu dono.

Então Obatalá despertou, tomou conhecimento do ocorrido e foi contar tudo a Olodumare, que lhe disse: “O mundo já está criado. Perdeste uma grande oportunidade”.

Como castigo, Olodumare proibiu Obatalá e seus descendentes de beberem vinho de palma para sempre.

Mas a missão não estava ainda completa e Olodumare deu outra dádiva a Obatalá: a criação de todos os seres vivos que habitariam a Terra.

E assim Obatalá criou todos os seres vivos e criou o homem e a mulher.
Obatalá modelou em barro todos os seres humanos; e o sopro de Olodumare os animou.

O mundo agora se completara. E todos louvaram Obatalá.

TERCEIRA LENDA

Quando o mundo foi criado, coube a Obatalá a criação do homem.
O homem foi criado e povoou a Terra.

Cada natureza da Terra, cada mistério e segredo, tudo foi governado pelos Orixás.

Com atenção e oferendas aos Orixás, tudo o homem conquistava.

Mas os seres humanos começaram a se imaginar com os poderes que eram próprios dos Orixás. Deixaram de fazer oferendas. Imortais que eram, pensavam em si mesmos como deuses. Não precisavam de outros deuses.
Cansado dos desmandos humanos, Obatalá decidiu viver com os Orixás no espaço sagrado que fica entre o Aiê (a Terra) e o Orum (o Céu).

E Obatalá decidiu que os homens deveriam morrer; cada um num certo tempo, numa certa hora.

Então Obatalá criou Icu, a Morte, encarregando-a de fazer morrer todos os humanos, porém impondo-lhe uma condição: só Olodumare podia decidir a hora de morrer de cada homem. A Morte leva, mas a Morte não decide a hora de morrer. O Mistério Maior pertence exclusivamente a Olorum.

QUARTA LENDA

Dizem que quando Olorum encarregou Oxalá de fazer o mundo e modelar o ser humano, o Orixá tentou vários caminhos: tentou fazer o homem de ar, como Ele. Não deu certo, pois o homem logo se desvaneceu; tentou fazer de madeira, mas a criatura ficou dura; de pedra a tentativa ainda foi pior; fez de fogo e o homem se consumiu. Tentou azeite, água e até vinho de palma, e nada.

Foi então que Nanã Burucu veio em seu socorro: apontou para o fundo do lago com o seu ibiri, seu cetro e arma, e de lá retirando uma porção de lama. Nanã deu a Oxalá a porção de lama, o barro do fundo da lagoa onde ela morava.

Oxalá criou então homem e o modelou no barro. Com o sopro de Olorum, o homem caminhou e com a ajuda dos Orixás povoou a Terra.

QUINTA LENDA

Oxalá era marido de Nanã, a Senhora do Portal da Vida e da Morte, da fronteira da nossa dimensão para outras.

Por determinação de Nanã, somente os seres femininos tinham o acesso àquele Portal. Esta determinação servia para todos, inclusive para o próprio Oxalá. Durante muito tempo assim foi.

Porém, Oxalá não se conformava em não poder conhecer o Portal, não só porque era marido de Nanã, como por sua própria importância no panteão dos Orixás.

Pensou e pensou, até que encontrou a melhor forma de burlar as determinações da esposa. Não fugindo de sua cor branca, vestiu-se de mulher, colocou o Adê (coroa) com os “chorões” no rosto (próprio das Iabás), e se aproximou do Portal, satisfazendo, enfim, sua curiosidade.

Mas foi surpreendido por Nanã, que se aproximou e determinou: “ - Já que te vestiste de mulher para desvendar um segredo importante, vou compartilhá-lo contigo. Terás a incumbência de ser o principio do fim, aquele que tocará o cajado três vezes no solo para determinar o fim de um ser. Porém, jamais conseguirás te desfazer das vestes femininas e daqui para frente terá todas as oferendas fêmeas!”

E Oxalá, conhecido por Oxalufan, passou a receber oferendas não mais como os demais Orixás masculinos, e sim de cabras e galinhas, como as Iabás. E jamais se desfez das vestes de mulher. Em compensação, transformou-se no Senhor do princípio da morte e conheceu todo o seu segredo.

Oxalá, portanto, é o fim. Não o fim trágico, mas pacífico, de tudo o que existe no mundo. E por isso merece todo o carinho que lhe damos. Por isso, é o nosso salvador, nosso conselheiro, aquele que vem nos momentos de angústia para trazer algo de que o mundo precisa demasiadamente: a Paz.

OXALÁ NA UMBANDA SAGRADA: O TRONO MASCULINO CRISTALINO OU DA FÉ

Oxalá é o Trono ou Divindade Masculina da Fé, que irradia a fé o tempo todo de forma passiva, não forçando ninguém a vivenciá-la, pois ele é universal e sustenta a todos que têm fé. Os fatores de Oxalá são magnetizadores e congregadores, e este fator está na base da criação, pois sem fé não existe os outros atributos dos demais tronos/divindades e sem magnetismo nada existiria em nosso planeta. Este é o trono principal, regente de nosso planeta. As Divindades que representam esse trono costumam estar no topo de um panteão das culturas religiosas, e são identificadas com o Sol, que a tudo sustém.

Oxalá faz par com a Orixá Oyá -Tempo (que estudaremos adiante) na primeira linha de Umbanda, a Linha da Fé ou Linha Cristalina (o elemento desta linha é o cristal). Oxalá representa a pureza e está em todos os lugares, e religiosamente goza de posição de destaque, pois sem fé não há religião. No dia-a-dia nós vemos Oxalá nos templos, mesquitas, igrejas e outros locais de culto das diversas religiões que se espalham por esta Terra.

QUANDO INVOCAMOS OU EVOCAMOS OXALÁ?

Invocamos ou evocamos Oxalá quando necessitamos de amparo no campo da fé e da religiosidade, para que este grande orixá nos ajude a evoluir, de maneira equilibrada, no campo da religiosidade. A maneira mais simples de busca o poder de Oxalá é acendendo uma vela branca (palito ou de 7 dias) a Oxalá e elevando seu coração a este orixá, fazendo suas preces e rezas, expondo a sua necessidade neste campo. Uma única vela firmada com fé é capaz de trazer a nós o axé poderoso de Pai Oxalá.

INFORMAÇÕES BÁSICAS SOBRE OXALÁ

Saudação:
Oxalá Epa Babá!
(Significa: Salve Pai!) Branco, Dourado e Transparente

Instrumento:
Paxorô
(espécie de cajado)

Elemento:
O Cristal

Ponto de Força:
O mundo inteiro (criado por Ele) é ponto de força de Oxalá, entretanto, na entrega de oferenda, costuma-se ofertar a Oxalá nos Mirantes, Campos Abertos e Bosques

Seu dia:
Todos os dias, especialmente Domingo, dia relacionado ao Sol. Sol

Seu Número: 
Na Umbanda é o número 01

Sincretismo:
Jesus Cristo

Data Comemorativa:
25 de dezembro.

O ARQUÉTIPO DOS FILHOS (AS) DE OXALÁ

Aqueles que são filhos de Oxalá tem, por corolário lógico, as características de Oxalá. As principais características que os filhos de Oxalá possuem são:

I. No Positivo:

• A calma
• A tranquilidade
• A tolerância
• O perdão
• A liderança
• A inteligência
• Meditativos
• O desejo de compreender os mistérios da vida
• Facilidade para ensinar, são grandes mestres, principalmente de questões religiosas
• Não gostam de barulho
• Não gostam de confusão
• Comportamento Digno
• Moral Elevada
  Etc

II. No Negativo:

• Autoritarismo
• Rabugentos
• Reclamões
• Teimosos
• Excessivamente exigentes
• Soberba (acham que são superiores aos outros)
• Agressividade
• Intolerância
• Fanatismo religioso
• Isolamento
   ​​​​​Etc

A NECESSIDADE DE UM FILHO (A) DE OXALÁ

A grande necessidade de um filho de Oxalá é entender as questões relacionadas a fé, vivendo, de modo equilibrado, a sua espiritualidade. Um filho de Oxalá tem tendência natural a buscar o caminho da religiosidade, e desde cedo o faz.

Além disso, um filho de Oxalá tem necessidade de compreender os mistérios da existência, e vive em busca do entendimento acerca das perguntas elementares da vida: quem sou? De onde vim? Para onde vou? Seja como orixá de frente, juntó ou ancestral, a fé é o grande alicerce de um filho de Oxalá. Um filho de Oxalá acredita em milagres, e milagres acontecem.

Precisam cuidar para não se sentirem superiores e não se tornarem agressivos e intolerantes. Sua Fé precisa sempre estar equilibrada. Precisam meditar e rezar sempre.


Dúvidas e Perguntas:
Email: jaderoliveira.j@hotmail.com
Primado Sete Covas do Brasil Templo de Umbanda
Enviado por Primado Sete Covas do Brasil Templo de Umbanda em 25/07/2016
Alterado em 24/07/2017

Música: Força do Divino - Ponto de Oxala - Desconhecido

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